Só dá para saber se uma criança tem autismo com uma avaliação feita por profissionais. Não existe exame de sangue, teste online ou lista de sinais que dê essa resposta sozinha. O que os pais podem fazer, e fazem muito bem, é observar. Na maioria das vezes, é a família quem percebe primeiro que algo está diferente.
Se você está com essa dúvida, o caminho é mais simples do que parece: observe o seu filho no dia a dia, anote o que chama atenção, leve isso ao pediatra e, se a dúvida continuar, busque uma avaliação. Não precisa ter certeza de nada para dar o primeiro passo. A dúvida já é motivo suficiente.
Por que não dá para saber com um teste rápido?
O autismo (Transtorno do Espectro Autista, ou TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento. Ele aparece no jeito como a criança se comunica, se relaciona e se comporta. E isso varia muito de uma criança para outra. Por isso se fala em espectro.
O diagnóstico é clínico: o profissional junta a história da criança, o que a família conta, o que a escola observa e o que ele mesmo vê em consulta. Questionários de triagem, como o M-CHAT, ajudam a identificar quem precisa ser olhado com mais cuidado, mas não confirmam nem descartam o autismo. Expliquei isso em detalhes no texto sobre se o teste de autismo online funciona.
O que observar no dia a dia
Em vez de procurar um sinal isolado, vale olhar para três áreas. O autismo envolve dificuldades na comunicação e na interação social junto com comportamentos ou interesses repetitivos. As duas coisas juntas, de forma persistente, é que chamam atenção.
1. Como ele se conecta com as pessoas
- Ele olha para você quando quer mostrar alguma coisa ou só quando precisa de ajuda?
- Aponta para dividir algo com você (“olha o avião!”), e não apenas para pedir?
- Atende quando é chamado pelo nome, na maioria das vezes?
- Traz brinquedos para mostrar, sorri de volta, imita gestos e brincadeiras?
- Se interessa por outras crianças, mesmo que do jeito dele?
2. Como ele se comunica
- A fala ou os gestos estão aparecendo dentro do esperado para a idade?
- Ele usa as palavras para conversar com você ou mais para repetir frases de desenhos e músicas?
- Consegue combinar gesto, olhar e som para se fazer entender?
- Perdeu palavras ou habilidades que já tinha?
3. Como ele brinca e reage ao ambiente
- Brinca sempre do mesmo jeito, enfileirando, girando ou abrindo e fechando objetos por muito tempo?
- Fica muito incomodado com pequenas mudanças de rotina ou de caminho?
- Tem interesses muito intensos e restritos, difíceis de interromper?
- Reage de forma muito forte ou muito fraca a barulhos, texturas, cheiros ou dor?
- Faz movimentos repetitivos, como balançar o corpo ou agitar as mãos, com frequência?
Se quiser ver o que costuma aparecer em cada fase, do bebê à idade escolar, tem um texto só sobre isso: sinais de autismo por idade.
O que, sozinho, não indica autismo
Muitas famílias se assustam com um comportamento isolado. Alguns exemplos que, sozinhos, não querem dizer autismo:
- Falar mais tarde: atraso de fala tem muitas causas, inclusive audição. Quando a criança se comunica bem com gestos, olhar e interesse pelas pessoas, o quadro costuma ser outro. Escrevi sobre isso em atraso na fala: quando procurar ajuda.
- Enfileirar brinquedos de vez em quando: muitas crianças fazem isso numa fase. O que chama atenção é quando é quase a única forma de brincar.
- Ser tímido: a criança tímida demora para se soltar, mas costuma buscar o olhar dos pais e dividir as coisas com quem conhece.
- Birras fortes: fazem parte da infância. Ganham outro peso quando vêm junto com dificuldades de comunicação e de interação.
- Não olhar nos olhos de estranhos: o importante é como a criança usa o olhar com as pessoas próximas.
Vale o contrário também: uma criança que fala bem, é carinhosa e olha nos olhos pode estar no espectro. Isso é mais comum no autismo de nível 1, que muitas vezes só fica claro na escola.
Como saber se uma criança de 3 anos tem autismo?
Essa é uma das dúvidas mais comuns, porque é por volta dessa idade que a convivência na escolinha aumenta e as diferenças ficam mais visíveis. Aos 3 anos, chamam atenção principalmente:
- pouca ou nenhuma brincadeira de faz de conta;
- pouco interesse em brincar com outras crianças;
- fala que serve mais para repetir do que para conversar;
- dificuldade de se adaptar a mudanças, com crises intensas;
- interesses muito fixos e incômodo forte com sons, roupas ou alimentos.
Nessa idade já é possível fazer uma avaliação bem completa. Atendo crianças a partir de 2 anos e 6 meses.
Como organizar o que você está vendo
Antes da consulta, algumas coisas ajudam muito o profissional e evitam que você esqueça detalhes na hora:
- Anote exemplos concretos: em vez de “ele é diferente”, escreva “quando chamo pelo nome, quase nunca olha” ou “só brinca de girar as rodinhas do carrinho”.
- Grave vídeos curtos: a criança pode se comportar de outro jeito no consultório. Vídeos do dia a dia mostram o que você vê em casa.
- Converse com a escola: pergunte como ele brinca, se interage com os colegas e como reage às mudanças.
- Reúna a história: gravidez, parto, quando sentou, andou, falou as primeiras palavras, e se alguém da família tem autismo ou outras condições do desenvolvimento.
O caminho até uma resposta
- Pediatra: é a porta de entrada. Ele acompanha o desenvolvimento, pode aplicar a triagem (a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda o M-CHAT-R/F entre 16 e 30 meses) e investiga outras causas, como audição.
- Avaliação: quando a dúvida continua, a investigação costuma envolver mais de um profissional. A avaliação neuropsicológica para autismo, feita por psicólogo, analisa comunicação, interação, comportamento, atenção, linguagem e aspectos emocionais, com entrevistas, observação e testes padronizados. Fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional também podem participar.
- Diagnóstico: o diagnóstico de TEA é clínico e, na prática, costuma ser fechado pelo médico (neuropediatra ou psiquiatra da infância), que reúne as informações das avaliações. Explico melhor no texto sobre quem pode dar o laudo de autismo.
Você não precisa seguir exatamente essa ordem. Muitas famílias começam pela avaliação neuropsicológica, que não exige encaminhamento médico, e levam o relatório ao médico depois.
E enquanto espera a avaliação?
A espera costuma ser a parte mais difícil. Algumas coisas ajudam:
- brinque no chão com seu filho, seguindo o interesse dele e comentando o que ele faz;
- fale com frases curtas e dê tempo para ele responder;
- mantenha uma rotina previsível e avise antes das mudanças;
- diminua o tempo de tela e troque por momentos de brincadeira junto;
- cuide de você também: a preocupação cansa, e você não precisa carregar tudo sozinho.
Nada disso substitui a avaliação, mas faz bem para qualquer criança. E não, o autismo não é causado por algo que os pais fizeram ou deixaram de fazer.
Quando procurar ajuda logo
Não espere para conversar com um profissional se:
- seu filho perdeu palavras ou habilidades que já tinha, em qualquer idade;
- não responde ao nome na maior parte das vezes, depois de 1 ano;
- não aponta nem mostra coisas para você até 1 ano e meio, mais ou menos;
- a escola ou outras pessoas próximas estão notando as mesmas coisas que você;
- a dúvida está tirando o seu sono.
Começar cedo faz diferença. Quanto antes a criança recebe apoio, mais ela aproveita uma fase em que o cérebro está aprendendo muito rápido.
Em São Roque e região
Faço avaliação neuropsicológica infantil presencial no meu consultório em São Roque e recebo famílias de Mairinque, Alumínio, Araçariguama, Ibiúna, Vargem Grande Paulista e Sorocaba. Tenho experiência clínica com crianças no espectro autista e acompanho também a família, porque ela é parte importante do processo. Veja como funciona na página de avaliação neuropsicológica infantil em São Roque.
Perguntas frequentes
Com que idade dá para saber se uma criança tem autismo?
Alguns sinais aparecem antes dos 2 anos, e por volta dessa idade o diagnóstico feito por um profissional experiente já pode ser bastante seguro. Mas muitas crianças, principalmente com autismo de nível 1, só são identificadas mais tarde, na escola. Nunca é tarde para avaliar.
Meu filho olha nos olhos. Então não é autismo?
Não necessariamente. O contato visual é só um dos pontos observados. Muitas crianças no espectro olham nos olhos, mas têm dificuldade em outras partes da comunicação e da interação.
Posso fazer o M-CHAT em casa?
O questionário é de uso livre, mas foi feito para ser usado com acompanhamento de um profissional, que faz a entrevista de seguimento e interpreta o resultado. Um resultado de “baixo risco” não tira a sua preocupação se ela continuar. Leve a dúvida ao pediatra.
Preciso de encaminhamento médico para a avaliação?
Não. Você pode procurar a avaliação neuropsicológica diretamente. Alguns convênios pedem encaminhamento para reembolso, então vale consultar o seu plano.
Autismo é doença?
Não. É uma condição do neurodesenvolvimento, uma forma diferente de o cérebro se desenvolver. Com apoio adequado, a criança desenvolve habilidades, ganha autonomia e qualidade de vida. O objetivo é ajudá-la a se desenvolver do jeito dela.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação: Transtorno do Espectro do Autismo (2019). sbp.com.br
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Triagem precoce para Autismo/Transtorno do Espectro Autista. sbp.com.br
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Signs and Symptoms of Autism Spectrum Disorder. cdc.gov
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Diagnosing Autism Spectrum Disorder. cdc.gov
- Ministério da Saúde. Autismo: atenção especializada. gov.br/saude
Se você está com essa dúvida e quer conversar sobre o que tem observado no seu filho, pode me chamar no WhatsApp (11) 91876-0550. Explico como a avaliação funciona e ajudo você a pensar no próximo passo.
Texto revisado por Giuliana Piccirillo, psicóloga – CRP 06/190425.