Cada criança tem seu ritmo para começar a falar, mas existe uma faixa esperada. Em geral, por volta de 1 ano e meio a criança já tenta falar algumas palavras e, perto dos 2 anos, começa a juntar duas palavras (“mais água”, “papai foi”). Se isso não está acontecendo, ou se a criança também não aponta, não faz gestos e parece não entender o que é dito, vale procurar avaliação.
O primeiro passo costuma ser conversar com o pediatra e procurar um fonoaudiólogo, que é o profissional que avalia fala e linguagem. Também é preciso checar a audição. Na maioria das vezes, o atraso na fala tem explicações simples e responde bem a estímulo e acompanhamento. Esperar “para ver se melhora sozinho” por muito tempo é o que menos ajuda.
Fala e linguagem: qual a diferença?
Parece a mesma coisa, mas não é. Fala é a parte de produzir os sons e as palavras: a criança fala “tato” em vez de “gato”, por exemplo. Linguagem é a capacidade de entender e de se comunicar, com palavras, gestos e expressões.
Uma criança pode falar bem claro, mas usar só frases muito curtas para a idade. Outra pode formar frases longas, mas difíceis de entender. São situações diferentes, e o fonoaudiólogo avalia as duas.
O que a maioria das crianças faz em cada idade
Os marcos abaixo são baseados na lista do CDC, o centro de controle de doenças dos Estados Unidos, revisada com a Academia Americana de Pediatria. Eles mostram o que a maioria das crianças (cerca de 3 em cada 4) já faz até aquela idade. Não são prova nem nota. Servem para orientar a conversa com o pediatra.
Até 6 meses
Faz sons e “conversa” com você, esperando a vez. Dá gritinhos e faz barulhos com a boca.
Até 9 meses
Balbucia sílabas repetidas, como “mamama” e “bababa”. Levanta os braços para pedir colo.
Até 1 ano
Dá tchau, chama os pais de “mamã”, “papá” ou outro nome especial e entende o “não” (para, nem que seja por um instante).
Até 1 ano e 3 meses
Tenta falar uma ou duas palavras além de “mamã” e “papá”, mesmo que pela metade (“bo” para bola). Olha para um objeto conhecido quando você fala o nome dele. Aponta para pedir alguma coisa.
Até 1 ano e meio
Tenta falar três ou mais palavras além de “mamã” e “papá”. Segue um pedido simples sem você precisar fazer gesto, como “me dá a bola”.
Até 2 anos
Junta duas palavras (“mais leite”). Aponta figuras no livro quando você pergunta (“cadê o cachorro?”). Mostra pelo menos duas partes do corpo quando pedido. Usa outros gestos além de dar tchau e apontar, como mandar beijo ou balançar a cabeça para dizer sim.
Até 3 anos
Conversa com você em pelo menos duas trocas de ida e volta. Faz perguntas como “quem?”, “o quê?”, “onde?”, “por quê?”. Fala o próprio nome quando perguntam. Na maior parte do tempo, outras pessoas entendem o que ela diz.
Até 4 anos
Fala frases com quatro palavras ou mais. Conta alguma coisa que aconteceu no dia (“eu brinquei de bola”). Responde perguntas simples, como “para que serve o casaco?”.
Criança de 2 anos não fala: quando se preocupar?
Essa é uma das dúvidas que mais aparecem. Algumas crianças de 2 anos falam pouco, mas entendem tudo, apontam, fazem gestos, imitam e se comunicam bem do jeito delas. Outras, além de falar pouco, também não apontam, não respondem quando chamam e não parecem interessadas em se comunicar. A segunda situação pede avaliação mais rápida.
De forma geral, vale procurar ajuda se a criança:
- com 1 ano: não usa gestos, como apontar ou dar tchau;
- com 1 ano e meio: prefere gestos a qualquer som para se comunicar ou tem dificuldade de imitar sons;
- com 2 anos: ainda não junta duas palavras, só repete o que ouve e quase nunca fala por iniciativa própria, ou não segue pedidos simples;
- com 3 anos: é muito difícil de entender até para a família. Como referência, quem convive com a criança costuma entender cerca de metade do que ela fala aos 2 anos e uns três quartos aos 3 anos;
- em qualquer idade: perdeu palavras ou habilidades que já tinha. Esse sinal nunca deve esperar.
Você conhece seu filho melhor do que ninguém. Se algo está te incomodando, mesmo que não esteja nesta lista, vale levar a dúvida ao pediatra.
Quem procurar primeiro: fonoaudiólogo e pediatra
O fonoaudiólogo é, em geral, o primeiro especialista quando a questão é fala. Ele avalia como a criança entende, como se expressa, como produz os sons e como usa lábios, língua e mandíbula. A partir disso, diz se há atraso e se a terapia fonoaudiológica é indicada. Você pode procurar o fono diretamente ou por indicação do pediatra.
O pediatra acompanha o desenvolvimento como um todo, olha a história de saúde, examina e decide se é preciso pedir exames ou encaminhar para outros especialistas, como otorrino ou neuropediatra.
E a audição?
Sempre que houver preocupação com a fala, a audição precisa ser avaliada. A criança aprende a falar ouvindo. Uma perda auditiva, mesmo parcial, pode atrasar a fala e a compreensão. Infecções de ouvido que se repetem também podem atrapalhar.
O teste da orelhinha feito na maternidade é muito importante, mas não substitui uma nova avaliação quando a fala está atrasando. Converse com o pediatra sobre um exame de audição.
Atraso na fala é sinal de autismo?
Nem sempre. Muitas crianças com atraso na fala não são autistas. O atraso pode estar ligado a audição, ao ritmo próprio da criança, a questões motoras da boca ou a pouca oportunidade de conversa, entre outras coisas.
Ao mesmo tempo, o atraso de linguagem é comum em crianças no espectro autista. O que ajuda a diferenciar não é só “quantas palavras ela fala”, mas como ela se comunica. Pode valer uma investigação mais ampla quando, junto com a fala atrasada, a criança:
- não responde pelo nome com frequência;
- evita ou mantém pouco contato visual;
- não aponta para mostrar coisas que acha interessantes;
- repete frases ou falas de desenho fora de contexto;
- tem reações muito fortes a mudanças, barulhos ou texturas.
Esses sinais não fecham diagnóstico. Eles indicam que vale olhar com mais calma. Se quiser entender melhor, o texto sobre sinais de autismo por idade explica o que costuma ser observado em cada fase.
O que os pais podem fazer em casa
Enquanto aguarda a avaliação, e também depois dela, algumas atitudes simples fazem diferença:
- Converse o tempo todo: narre o que vocês estão fazendo (“agora vamos lavar a mão, a água está gelada”). Frases curtas e claras.
- Leia junto: livros com figuras grandes, apontando e nomeando. Não precisa ler a história inteira.
- Cante e brinque com sons: músicas com gestos, barulho dos bichos, brincadeiras de imitar.
- Dê tempo para a criança responder: espere alguns segundos antes de completar a frase por ela.
- Repita do jeito certo, sem corrigir: se ela disse “tato”, responda “é o gato!”, com carinho.
- Diminua as telas: a Sociedade Brasileira de Pediatria, seguindo a OMS, orienta evitar telas antes dos 2 anos e limitar a até uma hora por dia entre 2 e 5 anos. A conversa cara a cara é o que mais estimula a linguagem.
Ninguém precisa virar terapeuta em casa. A ideia é transformar momentos que já existem, como banho, refeição e passeio, em oportunidades de conversa.
Quando a avaliação neuropsicológica entra?
Na maioria dos atrasos de fala, o caminho começa pelo fono e pelo pediatra. A avaliação neuropsicológica entra quando a dúvida é mais ampla: quando há suspeita de autismo, de atraso em outras áreas do desenvolvimento, de dificuldades de atenção ou de comportamento, ou quando a família e os profissionais precisam entender melhor como a criança funciona como um todo.
Ela não substitui a avaliação fonoaudiológica. As duas se completam, e as informações ajudam o médico, quando ele está envolvido, a decidir os próximos passos. Você pode ver como é feita na página de avaliação neuropsicológica infantil.
Quando procurar ajuda
Procure o pediatra e um fonoaudiólogo se a fala do seu filho está bem atrás do esperado para a idade, se ele não usa gestos para se comunicar, se parece não entender o que é dito ou se a família está com dificuldade de compreendê-lo. Se ele perdeu palavras ou habilidades que já tinha, procure ajuda logo, sem esperar a próxima consulta de rotina.
Em São Roque e região
No meu consultório em São Roque, faço avaliação neuropsicológica a partir de 2 anos e 6 meses, de forma presencial, e recebo famílias de Mairinque, Alumínio, Araçariguama, Ibiúna, Vargem Grande Paulista e Sorocaba. Quando a fala atrasada vem junto com outras dúvidas sobre o desenvolvimento, a avaliação pode ajudar a organizar o caminho, sempre em conjunto com o fono e o pediatra. Se a suspeita for autismo, explico como funciona a avaliação de autismo.
Perguntas frequentes
Menino fala mais tarde que menina?
Há diferenças individuais grandes entre crianças, independentemente do sexo. Ser menino não é motivo para esperar quando a criança está bem atrás dos marcos esperados para a idade.
Criança que cresce com duas línguas fala mais tarde?
Crianças bilíngues podem misturar as línguas no começo, e isso é esperado. Mas o bilinguismo, por si só, não explica um atraso importante. Se houver preocupação, vale avaliar.
Língua presa atrasa a fala?
Alterações na língua, como o freio muito curto, podem interferir na forma de produzir alguns sons. Quem avalia isso é o fonoaudiólogo, junto com o pediatra ou outro especialista.
Preciso de encaminhamento para levar ao fono?
No atendimento particular, você pode procurar o fono diretamente. Pelo convênio ou pelo SUS, as regras variam, e muitas vezes é preciso pedido médico.
Se eu esperar, ele não vai falar sozinho?
Algumas crianças alcançam as outras com o tempo, mas não dá para saber de antemão quais. Avaliar cedo não tem desvantagem: se estiver tudo bem, você fica tranquilo; se não, a ajuda começa antes.
Referências
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Milestones by age (Learn the Signs. Act Early.). cdc.gov
- American Academy of Family Physicians. CDC’s Revised Developmental Milestone Checklists, 2022. aafp.org
- KidsHealth (Nemours). Delayed Speech or Language Development. kidshealth.org
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Signs and Symptoms of Autism Spectrum Disorder. cdc.gov
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Crianças com menos de 2 anos não devem ter contato com telas, recomenda OMS. sbp.com.br
Se você está preocupado com a fala do seu filho e quer entender se a avaliação neuropsicológica faz sentido no caso dele, pode me chamar no WhatsApp (11) 91876-0550.
Texto revisado por Giuliana Piccirillo, psicóloga – CRP 06/190425.