Os sinais de autismo mudam com a idade, mas costumam aparecer em duas áreas: a comunicação e a interação social (olhar, gestos, fala, interesse pelas pessoas) e os comportamentos repetitivos, interesses muito restritos e reações diferentes a sons, texturas e luzes. Em bebês, os sinais são mais sutis. Entre 12 e 24 meses eles costumam ficar mais claros. Em crianças com autismo nível 1 (o que muita gente chama de “autismo leve”), podem aparecer só na escola.
Antes de seguir, um ponto essencial: nenhum sinal isolado é diagnóstico. Toda criança tem seu ritmo, e muitas crianças sem autismo apresentam um ou outro desses comportamentos em algum momento. O que chama atenção é um conjunto de sinais que se repete, aparece em vários lugares e atrapalha o dia a dia. Se algo te preocupa, o caminho é conversar com o pediatra, não tirar conclusões sozinho.
Como ler os sinais de autismo por idade
As faixas abaixo são uma referência, não uma régua. Elas reúnem sinais descritos pela Sociedade Brasileira de Pediatria e pelo CDC, o centro de controle de doenças dos Estados Unidos. Vale olhar para o conjunto e para o tempo: o sinal se mantém? Aparece em casa, na escola e com outras pessoas?
Sinais de autismo em bebês (até 12 meses)
No primeiro ano, os sinais são discretos e difíceis de perceber. Alguns pontos que podem chamar atenção:
- sorriso social que demora a aparecer (o bebê sorri pouco em resposta ao rosto e à voz dos pais);
- pouco interesse pelo rosto das pessoas e olhar que não se sustenta;
- por volta dos 9 meses, não responder quando chamado pelo nome e mostrar poucas expressões no rosto;
- perto de 1 ano, pouco interesse em brincadeiras de troca, como bater palminha ou esconde-esconde com as mãos;
- poucos ou nenhum gesto, como dar tchau ou apontar, até os 12 meses.
Muitos bebês são mais quietos ou mais lentos em alguma área, e isso não quer dizer nada. A consulta de rotina com o pediatra é o melhor lugar para observar esses pontos.
De 12 a 18 meses
Comunicação e interação:
- não mostrar objetos para os pais só para dividir o interesse (por exemplo, trazer um brinquedo para você ver);
- não apontar para mostrar algo interessante, como um avião ou um cachorro;
- pouca atenção compartilhada: a criança não olha para onde você aponta nem alterna o olhar entre você e o objeto;
- nenhuma palavra até por volta dos 16 meses.
Comportamentos e sensorialidade:
- usar os brinquedos sempre do mesmo jeito, como girar as rodinhas de um carrinho por muito tempo;
- movimentos repetidos, como balançar as mãos ou o corpo;
- reações muito fortes, ou ausência de reação, a sons, cheiros e texturas.
De 18 a 24 meses
É a fase em que a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda aplicar a triagem para autismo nas consultas de rotina. Sinais que merecem atenção:
- não juntar duas palavras com sentido até os 24 meses (repetir frases ouvidas não conta);
- pouca imitação de gestos e ações do dia a dia;
- não perceber quando alguém está chorando ou machucado;
- preferir brincar sozinho de forma constante, com pouca busca pelo adulto;
- enfileirar objetos e ficar muito incomodado quando a ordem muda;
- interesse intenso por partes de objetos, como portas, ventiladores ou luzes.
Sinais de autismo aos 2 anos e até os 3
Comunicação e interação:
- fala que não avança ou que serve pouco para pedir e conversar;
- repetir palavras ou frases fora do contexto, como trechos de desenho (isso se chama ecolalia);
- pouco interesse por outras crianças ou não entrar nas brincadeiras delas;
- usar a mão do adulto como “ferramenta” para pegar algo, em vez de pedir ou apontar.
Comportamentos e sensorialidade:
- crises intensas com pequenas mudanças na rotina ou no caminho;
- seletividade alimentar muito marcada, ligada a textura, cor ou cheiro;
- tapar os ouvidos com barulhos comuns ou buscar estímulos o tempo todo (girar, pular, olhar luzes).
De 3 a 5 anos
- pouco faz de conta: não brinca de casinha, de ser médico, de super-herói;
- dificuldade de brincar junto, dividir e esperar a vez;
- conversa difícil de manter: responde pouco ou fala só sobre o próprio assunto;
- tom de voz diferente, muito monótono ou “cantado”;
- interesses muito fortes e específicos (letras, números, planetas, dinossauros) que tomam quase todo o tempo;
- rigidez com regras e rotinas, com sofrimento grande quando algo sai do previsto.
Idade escolar e autismo leve: sinais que aparecem mais tarde
Em crianças com autismo nível 1, que precisam de menos suporte, a fala pode se desenvolver bem e o desempenho escolar pode ser bom. As dificuldades costumam aparecer quando as exigências sociais aumentam:
- dificuldade de fazer e manter amizades, mesmo querendo ter amigos;
- entender as coisas ao pé da letra e não perceber ironia ou piadas;
- conversas de mão única, com pouca troca;
- cansaço extremo depois da escola, com crises em casa;
- incômodo forte com barulho do recreio, etiquetas de roupa ou cheiros;
- muita ansiedade diante de mudanças e imprevistos.
Muitas vezes é a escola que percebe primeiro. Se você recebeu um pedido de avaliação, este texto pode ajudar: https://giupsi.com.br/escola-pediu-avaliacao-neuropsicologica/.
Autismo em meninas
Em meninas, o autismo pode passar despercebido por mais tempo. Pesquisas mostram que muitas aprendem a “camuflar” as dificuldades: observam e copiam o jeito das colegas, decoram frases para usar em conversas e se esforçam muito para parecer à vontade. Os interesses intensos também podem parecer comuns para a idade, como um personagem ou um tema específico. Esse esforço costuma ter um custo emocional alto, como ansiedade e exaustão.
Sinais de alerta que pedem avaliação logo
Alguns sinais não pedem espera. Converse com o pediatra o quanto antes se a criança:
- perder habilidades que já tinha, em qualquer idade, como parar de falar palavras que já usava, deixar de olhar ou de interagir;
- não usar gestos, como apontar ou dar tchau, até os 12 meses;
- não falar nenhuma palavra até os 16 meses;
- não formar frases de duas palavras espontâneas até os 24 meses.
Esses sinais não confirmam autismo. Podem ter outras causas, como alterações de audição. Mas indicam que vale investigar sem demora.
O que é o M-CHAT e para que ele serve
O M-CHAT é um questionário de triagem para sinais de autismo em crianças pequenas. A versão recomendada hoje é a M-CHAT-R/F, que tem 20 perguntas de sim ou não respondidas pelos pais, além de uma entrevista de seguimento quando o resultado fica no meio do caminho.
Dois pontos importantes:
- Triagem não é diagnóstico. O M-CHAT mostra se existe risco e se vale investigar mais. Ele não diz que a criança tem ou não tem autismo.
- Deve ser aplicado e interpretado por um profissional de saúde. Os pais respondem, mas quem pontua, faz a entrevista de seguimento e orienta a família é o pediatra ou outro profissional. Responder sozinho em um site, sem esse acompanhamento, pode gerar susto à toa ou falsa tranquilidade.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a triagem para todas as crianças, com ou sem suspeita, entre 16 e 30 meses, de preferência nas consultas de 18 e 24 meses. O M-CHAT está na Caderneta de Saúde da Criança, e a Lei 13.438/2017 tornou obrigatório aplicar, nas consultas pediátricas de acompanhamento dos primeiros 18 meses, um instrumento para identificar riscos ao desenvolvimento psíquico.
Quem faz o diagnóstico de autismo?
O diagnóstico de autismo é clínico. Isso quer dizer que não existe exame de sangue ou de imagem que confirme. Ele é feito pelo médico, geralmente o neuropediatra ou o psiquiatra infantil, a partir da história da criança, da observação e de informações de outros profissionais. Muitas vezes participa uma equipe com fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e psicólogo.
A avaliação neuropsicológica entra como parte desse caminho. Ela investiga, com entrevistas, observação e testes padronizados, como a criança se comunica, presta atenção, aprende, se organiza e lida com as emoções. O resultado ajuda o médico na conclusão diagnóstica e, principalmente, mostra os pontos fortes e as necessidades da criança, o que orienta a família, a escola e as terapias. Você pode saber mais sobre como funciona na página de avaliação neuropsicológica infantil.
Quando procurar ajuda
Procure o pediatra se você notar vários dos sinais descritos para a idade do seu filho, se eles se mantêm por algumas semanas ou se a escola relatar algo parecido. Procure logo, sem esperar, se houver perda de habilidades. Confiar na sua percepção é importante: os pais costumam ser os primeiros a notar que algo está diferente.
Buscar avaliação cedo não é rotular a criança. É garantir que ela receba apoio o quanto antes. E se não for autismo, a família ganha tranquilidade.
Em São Roque e região
No meu consultório em São Roque, faço avaliação neuropsicológica infantil a partir de 2 anos e 6 meses e acompanho crianças no espectro autista em terapia, com orientação aos pais. Recebo famílias de São Roque, Mairinque, Alumínio, Araçariguama, Ibiúna, Vargem Grande Paulista e Sorocaba. Os detalhes estão na página de avaliação e terapia infantil em São Roque.
Perguntas frequentes
Dá para perceber autismo em bebês?
Alguns sinais podem aparecer ainda no primeiro ano, mas costumam ficar mais claros entre 12 e 24 meses. Por isso o acompanhamento com o pediatra e a triagem aos 18 e 24 meses são tão importantes.
Meu filho de 2 anos ainda não fala. É autismo?
Não necessariamente. O atraso de fala tem várias causas possíveis, inclusive alterações de audição. Mas é um sinal que merece avaliação, principalmente se vier junto com pouco contato visual, poucos gestos ou pouco interesse pelas pessoas.
O que é “autismo leve”?
É como muita gente chama o autismo nível 1, em que a pessoa precisa de menos suporte. Os sinais existem, mas podem ser mais sutis e aparecer mais tarde, quando a vida social fica mais exigente.
Criança que olha nos olhos pode ter autismo?
Pode. O contato visual é só um dos aspectos observados, e muitas crianças no espectro olham nos olhos. É o conjunto de sinais que importa, não um comportamento isolado.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 150: Triagem precoce para o Transtorno do Espectro Autista (2024). sbp.com.br
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Signs and Symptoms of Autism Spectrum Disorder. cdc.gov
- National Institute of Child Health and Human Development (NICHD/NIH). What are the symptoms of autism? nichd.nih.gov
- Tubío-Fungueiriño M. et al. Social Camouflaging in Females with Autism Spectrum Disorder: A Systematic Review. Journal of Autism and Developmental Disorders, 2021. link.springer.com
- Brasil. Lei nº 13.438, de 26 de abril de 2017. camara.leg.br
Se você percebeu alguns desses sinais e quer conversar sobre o próximo passo, pode me chamar no WhatsApp (11) 91876-0550. Explico como funciona a avaliação e ajudo você a pensar no melhor caminho para o seu filho.
Texto revisado por Giuliana Piccirillo, psicóloga – CRP 06/190425.