Quando as famílias falam em “laudo de autismo”, geralmente estão pensando no documento médico com o diagnóstico de TEA. Esse documento é emitido pelo médico, em geral o neuropediatra ou o psiquiatra infantil, depois de avaliar a criança. O psicólogo não emite documento médico. Ele emite documentos psicológicos, como o laudo psicológico, que é o resultado de uma avaliação, como a avaliação neuropsicológica.
Os dois documentos são diferentes e se completam. O laudo psicológico descreve em detalhes como a criança funciona e pode trazer uma conclusão com base técnica. O médico considera essas informações, junto com o exame e a história clínica, para fechar o diagnóstico médico. Abaixo, explico cada documento, o que deve constar e para que serve.
Diagnóstico, laudo e relatório: qual a diferença?
Essas palavras costumam ser usadas como se fossem a mesma coisa, o que gera confusão. Vale separar:
- Diagnóstico: é a conclusão clínica de que a pessoa tem determinada condição. No caso do autismo, não existe exame de sangue ou de imagem que dê a resposta. O diagnóstico é feito a partir da história do desenvolvimento e da observação do comportamento, muitas vezes com a contribuição de vários profissionais.
- Laudo ou relatório médico: documento em que o médico registra o diagnóstico, os achados e as indicações de tratamento.
- Documentos psicológicos: documentos produzidos pelo psicólogo, com regras definidas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). O laudo psicológico é um deles.
Quem pode dar laudo de autismo?
O documento médico com o diagnóstico de TEA é emitido pelo médico. Na prática, quem costuma fazer esse diagnóstico em crianças é o neuropediatra ou o psiquiatra infantil, muitas vezes com apoio de uma equipe. Pelo SUS, o caminho começa na UBS, que encaminha para os serviços especializados conforme a organização da rede de cada região.
O psicólogo emite o laudo psicológico, que é o documento resultante de uma avaliação psicológica. Na avaliação neuropsicológica, o laudo reúne o que foi observado nas entrevistas, nos testes e nas sessões com a criança. Esse laudo pode trazer uma conclusão diagnóstica ou uma hipótese diagnóstica, sempre com base técnica e científica, e é uma informação valiosa para o médico.
Fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais também emitem relatórios da sua área, que ajudam a compor o quadro.
O que diz a Resolução CFP nº 06/2019 sobre os documentos do psicólogo
A Resolução nº 06/2019 do Conselho Federal de Psicologia define quais documentos o psicólogo pode produzir e como cada um deve ser feito. Os principais são:
- Declaração: registra informações objetivas, como comparecimento e horários de atendimento. Não pode falar de sintomas ou estado psicológico.
- Atestado psicológico: certifica uma condição ou um estado psicológico, com base em avaliação. Pode ser usado, por exemplo, para justificar faltas ou afastamento.
- Relatório psicológico: descreve o trabalho realizado e pode trazer orientações, recomendações e encaminhamentos. Não tem como objetivo produzir diagnóstico.
- Laudo psicológico: é o resultado de um processo de avaliação psicológica. Serve para apoiar decisões ligadas ao motivo da avaliação.
- Parecer psicológico: análise técnica sobre uma questão específica ou sobre outro documento psicológico. Não resulta de avaliação do paciente.
A mesma resolução permite que o psicólogo, a seu critério, use a CID ou o DSM, em suas edições atuais, como referência no laudo, desde que indique a fonte. No atestado psicológico, o código da CID pode aparecer quando houver justificativa, e a divulgação desse código depende de autorização por escrito da pessoa atendida ou do responsável. Ou seja: o psicólogo pode registrar a classificação na sua área, mas esse documento continua sendo psicológico, e não um atestado ou laudo médico.
O que costuma constar num laudo psicológico
Pela resolução do CFP, o laudo psicológico tem seis partes:
- Identificação: quem foi avaliado, quem pediu a avaliação, quem é o psicólogo responsável (com número do CRP) e qual é o objetivo.
- Descrição da demanda: o motivo que levou à avaliação, como as preocupações da família ou o pedido da escola.
- Procedimento: o que foi feito, como entrevistas, observação, testes, contato com a escola e número de encontros.
- Análise: a interpretação dos dados, explicando o que apareceu em cada área avaliada.
- Conclusão: o resultado da avaliação, que pode incluir diagnóstico ou hipótese diagnóstica, encaminhamentos, orientações e sugestões de intervenção.
- Referências: as fontes técnicas usadas.
No caso da avaliação neuropsicológica, a análise costuma passar por atenção, memória, linguagem, raciocínio, funções executivas, comportamento, habilidades sociais e aspectos emocionais. Além de dizer se o quadro é compatível ou não com TEA, um bom laudo mostra os pontos fortes da criança e dá orientações práticas para a família e a escola.
A devolutiva faz parte
O laudo não deve ser simplesmente entregue num envelope. A resolução do CFP diz que, para o laudo e o relatório psicológico, o psicólogo deve fazer pelo menos uma entrevista devolutiva, explicando os resultados para a família. A entrega é registrada com protocolo assinado. O psicólogo também precisa guardar os documentos por pelo menos cinco anos.
Para que serve o laudo?
Na escola
O laudo psicológico ajuda a escola a entender como a criança aprende e quais adaptações fazem sentido, como dividir tarefas, mudar a forma de dar instruções ou preparar a criança para mudanças na rotina. A família decide se e como compartilhar o documento. Se a escola pediu uma avaliação, explico os próximos passos em escola pediu avaliação neuropsicológica: e agora?
Nas terapias
Fono, TO, psicólogo e outros profissionais usam as informações para montar um plano de acompanhamento mais adequado, focado nas dificuldades reais e aproveitando os pontos fortes da criança.
No convênio e em outros direitos
Aqui vale atenção. Cada convênio, órgão ou benefício define quais documentos aceita. Em muitos casos, é pedido relatório ou pedido médico com o diagnóstico. Antes de iniciar qualquer processo, pergunte diretamente à instituição quais documentos ela exige, e de qual profissional. Assim você evita idas e vindas.
Laudo não é rótulo
Muitos pais têm medo de que o laudo “marque” a criança. É uma preocupação compreensível. Mas um documento bem feito faz o oposto: ajuda as pessoas ao redor a entender o que a criança precisa e a parar de interpretar as dificuldades como birra, preguiça ou falta de educação. E às vezes a avaliação conclui que não se trata de autismo, o que também é uma resposta importante.
Quando procurar ajuda
Vale buscar avaliação se você, a escola ou o pediatra perceberam sinais como pouca resposta ao nome, atraso na fala, pouco interesse em brincar com outras pessoas, comportamentos repetitivos ou reações muito intensas a mudanças e estímulos. O primeiro passo pode ser o pediatra ou a UBS. A avaliação neuropsicológica pode ser feita em paralelo, sem precisar de encaminhamento.
Em São Roque e região
Faço a avaliação neuropsicológica com foco em autismo presencialmente, no meu consultório em São Roque, para crianças a partir de 2 anos e 6 meses. Recebo famílias de Mairinque, Alumínio, Araçariguama, Ibiúna, Vargem Grande Paulista e Sorocaba. A avaliação dura em média dois meses e termina com devolutiva e laudo psicológico. Veja as etapas em como funciona a avaliação neuropsicológica infantil.
Perguntas frequentes
Psicólogo pode dar laudo de autismo?
O psicólogo emite laudo psicológico, resultado de uma avaliação, que pode trazer conclusão ou hipótese diagnóstica e usar a CID ou o DSM como referência. O documento médico com o diagnóstico é emitido pelo médico.
Qual a diferença entre laudo e relatório psicológico?
O laudo é o resultado de uma avaliação psicológica e pode trazer diagnóstico. O relatório descreve o trabalho realizado, como um acompanhamento em terapia, e não tem como objetivo produzir diagnóstico.
O laudo psicológico tem CID?
Pode ter. A resolução do CFP permite que o psicólogo use a CID ou o DSM como referência, a seu critério e com base técnica.
Quanto tempo leva para ficar pronto?
Depende do processo. No meu consultório, a avaliação neuropsicológica leva em média dois meses, do primeiro encontro até a devolutiva com o laudo.
Quem recebe o laudo de uma criança?
Os pais ou responsáveis legais, em entrevista devolutiva. Eles decidem com quem compartilhar o documento.
Referências
- Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 06/2019, comentada – Orientações sobre elaboração de documentos escritos produzidos pela(o) psicóloga(o). site.cfp.org.br
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Testing and Diagnosis for Autism Spectrum Disorder. cdc.gov
- Ministério da Saúde. TEA na Atenção Especializada. gov.br/saude
Se você tem dúvidas sobre laudo, avaliação ou por onde começar, pode me chamar no WhatsApp (11) 91876-0550. Explico como funciona a avaliação e o que você recebe no final.
Texto revisado por Giuliana Piccirillo, psicóloga – CRP 06/190425.