Criança agitada não é sinônimo de TDAH. Toda criança se distrai, corre, interrompe e esquece coisas, principalmente nos primeiros anos. O que chama atenção no TDAH é a intensidade e a constância: os sinais aparecem quase todo dia, há pelo menos seis meses, em mais de um lugar (em casa e na escola, por exemplo), começam antes dos 12 anos e atrapalham a vida da criança de verdade.
Se o seu filho é agitado mas consegue brincar, aprender e conviver bem, provavelmente é o jeito dele ou uma fase. Se a agitação ou a desatenção estão trazendo prejuízo na escola, nas amizades ou na rotina da casa, vale conversar com o pediatra e investigar com calma. Sinais não são diagnóstico, mas ajudam a decidir quando buscar ajuda.
Criança agitada é TDAH?
Na maioria das vezes, não. Crianças pequenas têm pouca capacidade de ficar paradas e de esperar a vez. Isso faz parte do desenvolvimento. O cérebro que controla impulsos e organiza a atenção vai amadurecendo aos poucos, ao longo da infância e da adolescência.
O TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) é uma condição do neurodesenvolvimento. Nele, a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade aparecem num nível bem acima do esperado para a idade e de um jeito que causa dificuldade real. Não é falta de limite, não é preguiça e não é culpa dos pais.
O que diferencia a agitação típica da idade do TDAH?
Os manuais usados pelos profissionais de saúde, como o DSM-5-TR, olham para alguns pontos ao mesmo tempo. Nenhum deles sozinho define o quadro.
- Persistência: os sinais estão presentes há pelo menos seis meses, não só numa fase difícil (uma mudança de escola, a chegada de um irmão, uma separação).
- Mais de um ambiente: aparecem em pelo menos dois contextos, como casa e escola. Se a criança só fica “elétrica” em casa à noite, por exemplo, a explicação costuma ser outra.
- Prejuízo: atrapalham o aprendizado, as relações ou a rotina. Ser animado não é problema. O problema é quando a criança sofre ou deixa de conseguir fazer o que outras da mesma idade fazem.
- Início antes dos 12 anos: vários sinais já estavam lá na infância, mesmo que só tenham chamado atenção mais tarde.
- Intensidade para a idade: o comportamento é comparado com o de outras crianças da mesma idade, não com o de um adulto.
Um detalhe que muitos pais não sabem: as dificuldades do TDAH costumam ficar mais claras quando aumentam as cobranças de organização e autonomia, como na entrada no ensino fundamental. Por isso a escola muitas vezes é a primeira a perceber.
Quais são os sinais de TDAH em criança?
Os sinais se dividem em dois grupos: desatenção e hiperatividade/impulsividade. A combinação deles define a forma como o TDAH aparece, que os manuais chamam de apresentação.
Apresentação desatenta
É a criança que parece estar “no mundo da lua”. Alguns sinais comuns:
- começa as tarefas e não termina;
- perde material escolar, casaco, garrafinha com frequência;
- parece não escutar quando falam diretamente com ela;
- erra por descuido, pula linhas, esquece etapas;
- evita atividades que pedem esforço mental por muito tempo, como dever de casa;
- se distrai com qualquer barulho ou movimento.
Apresentação hiperativa/impulsiva
É a criança que parece estar “ligada no 220”. Por exemplo:
- não consegue ficar sentada quando é esperado, como na sala de aula ou à mesa;
- corre e sobe em tudo em situações inadequadas;
- fala muito e interrompe os outros;
- responde antes de a pergunta terminar;
- tem muita dificuldade de esperar a vez.
Apresentação combinada
Quando os dois grupos de sinais aparecem com força parecida. Segundo o protocolo do Ministério da Saúde, é a forma mais comum. A apresentação também pode mudar ao longo do tempo. Com o crescimento, muitas crianças melhoram aos poucos o controle da agitação, mas as dificuldades podem continuar de outras formas.
Meninas com TDAH: a desatenção que passa despercebida
Muitas meninas com TDAH não dão “trabalho” na escola. Em geral, nelas a desatenção pesa mais do que a hiperatividade. São crianças quietas, sonhadoras, que parecem estar prestando atenção mas não estão acompanhando.
Estudos mostram que meninas são encaminhadas para avaliação com menos frequência do que meninos. Alguns motivos: os sinais incomodam menos a turma, muitas se esforçam em dobro para dar conta das tarefas e a ansiedade, que é comum junto com o TDAH, acaba sendo vista como o único problema. O resultado é que a dificuldade pode aparecer só mais tarde, quando a carga de estudo aumenta.
Se a sua filha é tranquila, mas vive cansada com a escola, esquece tudo, demora horas na lição ou diz que “não é inteligente”, vale olhar com mais atenção.
O que pode imitar o TDAH?
Muita coisa pode deixar uma criança desatenta ou agitada. Por isso não existe um teste único para TDAH, e o profissional precisa descartar outras explicações. As mais comuns:
- Sono ruim: criança que dorme pouco ou dorme mal (ronco, despertares, apneia) pode ficar irritada, desatenta e mais agitada durante o dia.
- Ansiedade: a preocupação constante ocupa a cabeça e tira o foco. A criança ansiosa também pode parecer inquieta.
- Dificuldades de aprendizagem: quem tem dificuldade para ler, por exemplo, pode “desligar” na aula porque não está entendendo, e não por falta de atenção.
- Problemas de visão ou audição: parecem desatenção, mas a criança simplesmente não está enxergando ou ouvindo bem.
- Telas em excesso: muito tempo de tela, principalmente à noite, atrapalha o sono e a rotina. A Sociedade Brasileira de Pediatria, seguindo a OMS, orienta evitar telas antes dos 2 anos e limitar a até uma hora por dia entre 2 e 5 anos.
- Momentos de estresse na família: mudanças, perdas e conflitos mexem com o comportamento.
Também acontece de o TDAH vir junto com outras condições, como ansiedade, transtornos de aprendizagem ou autismo. Uma coisa não exclui a outra, e é por isso que a investigação precisa ser cuidadosa.
Quem faz o diagnóstico de TDAH?
O diagnóstico de TDAH é clínico. Isso quer dizer que não sai de um exame de sangue, de imagem ou de um único questionário. Ele é feito a partir da história da criança, de informações da família e da escola e da observação do comportamento.
No Brasil, o protocolo do Ministério da Saúde orienta que o diagnóstico seja feito por médico, como o psiquiatra, o pediatra, o neurologista ou o neuropediatra, e destaca que o acompanhamento funciona melhor com uma equipe de vários profissionais: médico, psicólogo, fonoaudiólogo, educadores, entre outros.
Qual é o papel da avaliação neuropsicológica?
A avaliação neuropsicológica para TDAH é feita por psicólogo e investiga como a criança funciona: atenção, memória, controle de impulsos, organização, velocidade para processar informações, linguagem e aspectos emocionais. Usa entrevistas, observação e testes padronizados.
Ela não substitui a consulta médica. Ela ajuda a responder perguntas que a observação sozinha não responde: a desatenção vem de onde? Existe uma dificuldade de aprendizagem junto? A ansiedade está pesando? Quais são os pontos fortes da criança? Esse material ajuda o médico na decisão e orienta a família e a escola sobre o que fazer no dia a dia. Se quiser entender as etapas, explico em detalhes em como funciona a avaliação neuropsicológica infantil.
Quando procurar ajuda
Vale buscar orientação se:
- a desatenção ou a agitação aparecem há meses, em casa e na escola;
- a escola relata com frequência que a criança não acompanha, não termina as atividades ou tem muita dificuldade de seguir regras;
- seu filho vive levando bronca, está se isolando ou dizendo coisas como “eu sou burro”;
- a rotina da casa virou uma batalha diária, apesar de tudo o que vocês já tentaram.
Um bom primeiro passo é conversar com o pediatra, que pode olhar sono, visão, audição e saúde geral. Se a escola já pediu uma avaliação, o texto sobre o que fazer quando a escola pede avaliação neuropsicológica ajuda a organizar os próximos passos.
Em São Roque e região
Faço avaliação neuropsicológica de crianças a partir de 2 anos e 6 meses, presencialmente, no meu consultório em São Roque. Recebo também famílias de Mairinque, Alumínio, Araçariguama, Ibiúna, Vargem Grande Paulista e Sorocaba. Não é preciso encaminhamento médico para começar. Quando faz sentido, a terapia infantil pode ajudar a criança e a família a lidar melhor com as dificuldades do dia a dia.
Perguntas frequentes
Com que idade dá para saber se a criança tem TDAH?
Os sinais começam na infância, mas em crianças muito pequenas é difícil separar o TDAH da agitação típica da idade. Por isso o diagnóstico em pré-escolares pede ainda mais cuidado. Muitas vezes o quadro fica mais claro na idade escolar.
Criança que fica horas no videogame pode ter TDAH?
Pode. Atividades muito estimulantes e com recompensa rápida prendem a atenção de quase todo mundo, inclusive de quem tem TDAH. A dificuldade costuma aparecer nas tarefas menos interessantes, como dever de casa e organização.
TDAH é falta de limite?
Não. Regras e rotina ajudam muito qualquer criança, mas o TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento. A criança muitas vezes entende a regra e quer cumprir, mas tem dificuldade real de controlar a atenção e o impulso.
Questionário da internet diagnostica TDAH?
Não. Escalas e questionários podem ajudar o profissional a organizar informações, mas sozinhos não dão diagnóstico. O resultado depende de quem responde e do contexto.
Preciso de pedido médico para fazer a avaliação neuropsicológica?
Não. Você pode procurar a avaliação diretamente. O pedido médico costuma ser exigido apenas por alguns convênios para reembolso, então vale consultar o seu plano antes.
Referências
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (Portaria Conjunta nº 14/2022). gov.br/conitec
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Diagnosing ADHD. cdc.gov
- Quinn PO, Madhoo M. A Review of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Women and Girls: Uncovering This Hidden Diagnosis. The Primary Care Companion for CNS Disorders, 2014. pmc.ncbi.nlm.nih.gov
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Crianças com menos de 2 anos não devem ter contato com telas, recomenda OMS. sbp.com.br
Se você está em dúvida se a agitação do seu filho é fase ou algo a investigar, pode me chamar no WhatsApp (11) 91876-0550. Conversamos sobre o que você tem observado e eu explico como a avaliação funciona.
Texto revisado por Giuliana Piccirillo, psicóloga – CRP 06/190425.